Dia Internacional das Mulheres na Engenharia
Engenheiras do IFCE desenvolvem tecnologias do futuro
Professoras do IFCE mostram pesquisas para formar profissionais e criar tecnologias para os desafios das próximas décadas
Publicada por Andressa Souza em 22/06/2026 ― Atualizada em 22 de Junho de 2026 às 18:53
Quando se fala em tecnologias do futuro, é comum imaginar carros autônomos, inteligência artificial ou fontes de energia ainda distantes da realidade cotidiana. Mas parte desse futuro já está sendo construída hoje em laboratórios e salas de aula do Instituto Federal do Ceará (IFCE), onde pesquisadoras atuam em áreas estratégicas como transição energética, transformação digital e construção civil inteligente.
No Dia Internacional das Mulheres na Engenharia, celebrado em 23 de junho, três professoras do IFCE mostram que a inovação não se limita à criação de novas tecnologias. Ela também passa pela formação de profissionais capazes de transformar conhecimento científico em soluções para problemas reais.
Energia limpa começa pela formação de pessoas

No campus do Pecém, a engenheira química Elizabete Carneiro atua em uma área que tem colocado o Ceará no centro das discussões sobre a transição energética mundial: o hidrogênio verde.
Mais do que desenvolver pesquisas, a professora trabalha na formação de profissionais que deverão atuar em uma cadeia produtiva considerada estratégica para o futuro energético do país.
"A formação de profissionais qualificados é essencial para o desenvolvimento da cadeia produtiva do hidrogênio verde. É necessário capacitar técnicos, engenheiros e pesquisadores para projetar, operar, monitorar e otimizar todas as etapas envolvidas na produção, armazenamento e transporte desse combustível", explica.
A necessidade de qualificação acompanha o movimento de expansão dos investimentos em energias renováveis no Ceará. Para Elizabete, a disponibilidade de mão de obra especializada será tão importante quanto o potencial de geração de energia solar e eólica do estado.
"A qualificação da mão de obra local, somada ao grande potencial energético do Ceará, torna o estado mais competitivo e atrativo para investimentos, contribuindo para a geração de empregos especializados e para o fortalecimento da economia", afirma.
Embora o hidrogênio verde ainda pareça um tema distante para parte da população, seus efeitos devem chegar ao cotidiano por meio da geração de empregos, da redução das emissões de gases de efeito estufa e da diminuição da dependência dos combustíveis fósseis.
Os avanços nessa área vão gerar oportunidades de trabalho e renda, além de contribuir para a melhoria da qualidade do ar e das águas, promovendo mais bem-estar para a população.
Quando a inteligência artificial ajuda a tomar decisões
No campus de Maranguape, a professora Jessyca Bessa, líder do Núcleo de Pesquisa e Inovação em Tecnologia (NUVEN), coordena projetos que vão da eficiência energética à gestão ambiental, passando por automação de processos e inteligência artificial.
À primeira vista, os temas parecem muito diferentes entre si. Mas, segundo ela, todos compartilham um objetivo comum.

"O ponto de conexão desses projetos é transformar dados em informações úteis para apoiar decisões mais rápidas, eficientes e inteligentes. A tecnologia é utilizada como ferramenta para resolver problemas reais", resume.
Entre as iniciativas desenvolvidas pelo grupo estão pesquisas voltadas à otimização da geração de energia eólica, à análise automatizada de autos de infração ambiental, à gestão ambiental inteligente e ao uso de inteligência artificial para produção de conteúdo digital.
Segundo a pesquisadora, a capacidade de processar grandes volumes de informações é hoje um dos principais diferenciais das novas tecnologias.
"As organizações possuem muitos dados, mas nem sempre conseguem transformá-los em conhecimento. Com inteligência artificial podemos identificar padrões, gerar previsões e automatizar análises, apoiando decisões de forma mais rápida e precisa", explica.
Entre os projetos desenvolvidos pela equipe, Jessyca destaca o SISAMB, plataforma voltada à gestão ambiental, como uma das iniciativas com maior potencial de impacto coletivo. "Daqui a dez anos, imagino o sistema funcionando de forma integrada, apoiando gestores públicos, empresas e a sociedade na construção de ambientes mais sustentáveis. Ele pode contribuir para tornar processos ambientais mais eficientes e acessíveis", afirma.
Para a pesquisadora, a presença feminina em áreas tecnológicas é parte fundamental desse processo de transformação.
A tecnologia precisa de diferentes perspectivas para criar soluções melhores e mais inclusivas. A presença feminina na ciência e na engenharia não é importante apenas para construir o futuro, mas para mudar o futuro.
Construindo cidades mais inteligentes
Enquanto algumas engenheiras trabalham com energia ou inteligência artificial, a professora Thaís Marilane, do campus Fortaleza, pesquisa uma revolução silenciosa que está mudando a forma de projetar edifícios e cidades.
Sua área de atuação envolve a metodologia BIM (Building Information Modeling), tecnologia que permite criar modelos digitais completos de edificações, reunindo em um único ambiente informações sobre arquitetura, estrutura, instalações, orçamento e manutenção.
Para explicar o conceito, a professora costuma recorrer a uma comparação simples.
Assim como um oleiro molda um vaso utilizando argila, no BIM nós moldamos uma construção utilizando informações. Em vez de trabalhar apenas com desenhos, trabalhamos com dados.
A diferença parece sutil, mas produz impactos significativos. Antes de uma obra começar, é possível identificar conflitos entre projetos, prever problemas e reduzir desperdícios.
"Quando trabalhamos em plataformas BIM conseguimos antecipar incompatibilidades que só seriam descobertas durante a construção. Isso reduz retrabalho, desperdício de materiais, custos e tempo de execução", afirma.

A pesquisadora também coordena iniciativas que utilizam impressão 3D e realidade virtual para apoiar o ensino da engenharia. Os estudantes podem interagir com modelos digitais, visualizar instalações em escala reduzida e compreender fenômenos físicos de maneira mais intuitiva.
"Estamos criando ambientes em que os alunos conseguem visualizar uma edificação, entrar virtualmente nela e entender como os sistemas funcionam. Isso aproxima teoria e prática de forma muito mais eficiente", explica.
Para Thaís, a digitalização da construção civil será decisiva para tornar as cidades mais sustentáveis.
"Hoje não faz mais sentido construir sem planejamento detalhado. Precisamos projetar melhor para reduzir desperdícios, consumo de energia, emissão de carbono e uso excessivo de recursos naturais", afirma.
Tecnologia com impacto humano
Embora atuem em áreas distintas, as três pesquisadoras compartilham uma mesma visão sobre o papel da engenharia: produzir conhecimento capaz de responder aos desafios da sociedade.
Seja na formação de profissionais para a economia de baixo carbono, no uso da inteligência artificial para apoiar decisões ou na criação de ferramentas para construir cidades mais eficientes, as pesquisas desenvolvidas pelas professoras do IFCE mostram que as tecnologias do futuro não nascem apenas em grandes centros internacionais. Elas também estão sendo construídas no Ceará, por mulheres que pesquisam, inovam e formam as próximas gerações de engenheiros.
- Palavras-chave:
- Engenharia Hidrogênio verde Pesquisa inteligência artificial