Pertencimento
Um campus acolhedor
Neste Dia do(a) Servidor(a) Público(a), o Campus Maranguape homenageia quem almeja e quem trabalha na unidade, contando a trajetória de algumas pessoas da Casa
Publicada por Priscila Luz em 28/10/2026 ― Atualizada em 28 de Outubro de 2026 às 05:52
No dia 30 de setembro, depois de quatro anos trabalhando como auxiliar de serviços gerais do Campus Maranguape, a estudante de Educação Física, Nara Gomes, não considerou o último dia do contrato como despedida. Determinada, ela disse que era um até breve, porque ia voltar.
Dessa vez, como servidora.
É com este vínculo marcado pelo pertencimento que o Campus Maranguape celebra o Dia do Servidor Público, neste 28 de outubro. Atualmente, são 74 servidores na unidade, entre 49 docentes e 25 técnicos administrativos. Os colaboradores hoje estão em 26, e os estagiários: quatro.
O campus, marcado não só por estes números como por aqueles que permeiam os cursos ofertados, também guarda histórias de pessoas que fazem do serviço público uma missão. No texto a seguir, você vai acompanhar experiências de quem trabalha no campus na condição de servidor público, de quem pretende ser e de quem, ainda que não possua cargo, tem o compromisso de servir à comunidade.
De onde vem um servidor público federal?
Pode vir dos lugares mais sertanejos que se possa imaginar. É o caso do professor Vandiésio Soares, que vem da Serra de São Gonçalo, no distrito de Arapari, em Itapipoca.
De educação pública ele entende. Aliás, dos primórdios dela. O caçula de 10 filhos começou a estudar na casa dos vizinhos. Quando chegou ao ensino formal, Vandiésio ia a pé até a sede do município, em um trajeto de quase duas léguas, em quase duas horas. Durante o dia, o futuro professor do IFCE era agricultor nos tempos de plantio; na seca, com o que precisasse trabalhar para ser pago com alimentos. Estudar - especialmente os números - era uma decisão diária.

Livros era algo que só viria no segundo grau, quando venceu três desafios - de matemática - para ganhar a primeira coleção. Vandiésio aprendia com o que via em sala de aula, pelos sistemas públicos de tele-ensino, e com o que ouvia, como os preparatórios para o vestibular em uma das duas rádios que conseguia sintonizar: a Assunção.
Ainda garoto a docência já dava sinais. Com lousa e giz emprestados, Vandiésio dava reforço de matemática para quem do lugarejo precisasse. Já moço, retribuía o apoio dos irmãos cuidando dos sobrinhos - e, não poderia faltar, aquele reforço nas exatas.
A escolha, enfim, pela licenciatura foi movida pela necessidade. Ainda que gostasse das engenharias, Vandiésio precisava estudar à noite para trabalhar durante o dia.
Quando passou no vestibular da Universidade Estadual do Ceará, para Matemática, desceu a serra e passou a morar no Bom Jardim, em Fortaleza, onde continuou a lidar com os desafios de estudar e trabalhar.
A matemática me liberta para o mundo
O diploma não foi um passaporte automático para a sala de aula. Entre a aprovação nas primeiras seleções para professor e o trabalho na área de comércio e serviços, levaram-se cerca de dois anos. E todo um processo de adaptação da rotina dos escritórios para a efervescência social das salas de aula.
Ensinar no Fundamental e Médio marcou a trajetória de Vandiésio, que foi servidor público municipal e servidor estadual. Quando não revezava as carreiras, revezava a jornada com o Mestrado Profissional em Matemática, experiência que serviu de alavanca para o próximo desafio: prestar concurso de professor para o IFCE, em 2016.
Se antes ele pensou em cursar engenharia, chegou a vez de ensinar nas engenharias, no Campus Quixadá. Antes da Casa atual, porém, uma escala no Campus Canindé, onde lecionou no curso de Matemática e vivenciou a experiência de gestão, ao coordenar a graduação.
Vandiésio Soares faz parte do Campus Maranguape desde 2023. Dá aulas de cálculo e de qualquer outra disciplina que se faça necessária dentro das subáreas de Matemática Básica e Matemática Aplicada, tanto nas licenciaturas de Física e de Matemática como no curso integrado de Informática.
Há 9 anos no serviço público federal, o professor vem trabalhando dia e noite nos roçados dos números, em cursos desafiadores. No entanto, longe de prognósticos ruins: "Eu vejo sonhos chegando. A gente vê o brilho nos olhos quando eles conseguem acertar. Teremos nomes bons. Sempre digo para eles que eu não sei de tudo, mas a gente encontra junto a solução".
O que um servidor público faz?
Muitas, muitas coisas. Pode ir a outra cidade em busca de material para compostagem, como pode estar desenvolvendo peças que facilitem o dia a dia de alguém com necessidades específicas. Ou ainda colaborando na organização de algum evento institucional. E, nas horas mais tranquilas, elaborando uma cartilha instrucional.
É o caso da servidora Ana Raquel Araújo da Silva, técnica do Laboratório de Química da unidade. Além das atividades específicas do cargo, ela participa do Grupo de Pesquisa em Plantas Medicinais (GepMed), do projeto que desenvolve tecnologias de baixo custo para pessoas com necessidades específicas (uma parceria entre a Pró-Reitoria de Extensão e o Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas), do Comitê de Atendimento Educacional Especializado, do projeto de compostagem (desenvolvido com apoio do CNPq) e do recém-aprovado projeto “Campus Esponja: Água, Juventude e Soluções Baseadas na Natureza do IFCE”.

Mas, leitor, leitora, não se espante com o volume de trabalho desta servidora. Afinal, como conta a própria Ana Raquel, “foi aqui [no Campus Maranguape] que pude ampliar minhas possibilidades de atuação, transformar ideias em projetos e contribuir com iniciativas que aproximam o Instituto da comunidade, promovendo inclusão, sustentabilidade, pesquisa e inovação social”, resume.
Neste ano em que a grande pauta dos Técnicos Administrativos em Educação foi a conquista do Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC), Ana Raquel passou longe dos requerimentos. Ela já tem dois pós-doutorados, tanto pela Uece quanto pela UFC. Da graduação ao doutorado, a carreira acadêmica é marcada pela pesquisa na área da Química. E de participação em bolsas de pesquisa. Recentemente, outra área tem chamado a atenção da servidora: a educação inclusiva.
Desde 2016 Ana Raquel faz parte do Instituto. Ela começou pelo cariri cearense, no Campus Crato, passando pela praia, no Campus Paracuru, até chegar à serra, no Campus Maranguape, em 2022.
Essa convivência tão positiva faz toda a diferença no desenvolvimento dos projetos, pois cada iniciativa se fortalece com a parceria, o apoio e a dedicação de tantas pessoas que compartilham do mesmo propósito: contribuir para uma educação de qualidade, mais inclusiva, humana e transformadora.
A servidora projeta mudanças profissionais, mas não de lotação. Ana Raquel se prepara para ser professora, profissão que já exerceu tanto na rede pública quanto na rede particular ao longo dos últimos 20 anos.
Terminado o trabalho do dia pelo IF, outras funções ativam o modo servidora de viver. Ana Raquel é casada, tem dois filhos, além de ser uma dedicada católica moradora do Cristo Redentor, em Fortaleza.
Quem é o servidor?
Há muitos rostos e histórias que fizeram e fazem o Campus Maranguape nestes nove anos de existência. E, embora em definição de lei o servidor público seja a pessoa investida em cargo público, há aquelas de quem o serviço é motivo de orgulho para a Administração.
É o caso de Irailson Silva Coelho, recepcionista do campus. Função, diga-se de passagem, recente em comparação com o tempo em que trabalha e ajuda a fazer a história no campus.
Antes mesmo de o IFCE Maranguape existir, ele já “prestava apoio” ao Colégio Santa Rita, primeira Casa do IFCE na cidade, como auxiliar de limpeza desde agosto de 2017. A unidade se oficializaria meses depois, em dezembro.
Mudança de casa, serviço mantido. Até 2025, Irailson integrava a equipe responsável pela limpeza no campus. Ele via as pessoas estudarem e não demorou muito para que quisesse fazer o mesmo. Irailson fez por dois anos o curso técnico Secretariado Executivo.
Com o incentivo de servidores da Casa, aventurou-se a estudar sobre o Sistema Eletrônico de Informações, o SEI. E não deu outra: do sistema é conhecedor como poucos.

Se a oportunidade passa como um cavalo selado, Irailson tratou de aproveitá-la. Surgiu a vaga para a função de recepcionista: “fui atrás e corri atrás dos meus objetivos”, lembra.
Desde janeiro deste ano, o recepcionista, além do essencial da profissão, é gestor do fluxo de chaves e de pessoas no campus, sistematiza a coleta de biometrias, como apoia as solenidades de certificação de curso e colação de grau. Há quem diga ainda que faz um dos melhores cafés do campus. É com ele também o início do processo mais esperado: a solicitação de diplomas e de certificados. Outros pedidos referentes à matrícula, disciplinas podem começar a partir dos serviços do Irailson.
Ele conta que nunca passou por qualquer constrangimento pelo fato de ocupar um cargo geralmente destinado às mulheres: “de forma alguma!” Ele, que acompanha o campus desde o período de pré-criação, é um dos entusiastas da educação profissionalizante. E se alguém pensa que ele já está satisfeito, eis a projeção: “quero crescer mais profissionalmente” no lugar que “não gosto: eu amo! Aqui já faz parte da minha vida”.
Servidor público à vista
O Campus Maranguape tem a missão, dentre tantas outras, em oferecer educação pública de qualidade para pessoas da região que não precisem sair de onde moram para estudar.
E isso já tem alguns resultados. Ou melhor, exemplos de vida.
Um deles é o Lériston de Souza Silva, morador do Novo Parque Iracema, bairro do campus, desde quando nem havia o bairro.
O IFCE em Maranguape faz parte das memórias quando ouvia a mãe dele falar, dona Ivoneide, de que na obra em que ela trabalhava seria construído o IFCE. E também quando o pai, o senhor Francisco Morais, nem pensou em outras possibilidades para o filho cursar o ensino médio: “O IFCE é melhor”.
Unindo o interesse pela matemática com a possibilidade de ir de casa para o campus a pé, Lériston ingressou no IFCE em 2021, para fazer o Técnico em Informática. E não parou mais, já que “aqui eu me sinto visto e acolhido”, declara.
Fez o curso subsequente de Secretaria Escolar, está no sexto semestre da licenciatura em Matemática e, enquanto avança com o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), está estudando as possibilidades de fazer o mestrado na Casa. E, quem sabe, um futuro doutorado?
Atualmente, Lériston está se preparando para ser o primeiro estudante do campus a participar do Programa de Intercâmbio Acadêmico Latino-Americano (PILA), pelo qual fará uma disciplina a distância na Universidade da Colômbia.

Não se surpreenda, leitor, leitora, se o Lériston encontrar tempo para trabalhar. Claro, no IFCE em Maranguape! Ele vem colecionando experiências como estagiário de vários setores administrativos da unidade, a exemplo da Coordenadoria de Comunicação Social, Coordenação do Curso de Informática, Mestrado Profissional em Ensino e Formação Docente, Departamento de Ensino e qualquer outro setor que precisar do conhecimento sistêmico que ele tem sobre a instituição. A propósito, Lériston também é monitor do preparatório Partiu IF.
Não precisa dizer que a probabilidade de ele saber sobre o parque documental, os fluxos processuais do campus é alta.
Há tempo ainda para representar o campus, ao integrar a Comissão Local de Heteroidentificação, o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas, o então Centro Acadêmico de Matemática, o Diretório Acadêmico, o Grupo de Artes Chico Anysio. Lériston também atuou no Grêmio Estudantil.
Com o passado e o presente ifceanos, o futuro não tende a ser diferente. Lériston tem o objetivo de se tornar professor de Matemática no campus. O plano B, professor na rede pública da cidade. O plano C sai um pouco da carreira, mas permanece em Maranguape: técnico administrativo do IFCE.
Vai ser uma inspiração para os alunos daqui verem que é possível crescer, especialmente no IF, que você começa no ensino médio. Tem muita gente sem perspectiva.
Alcançada ou a se alcançar, a meta de ser servidor público perpassa o Campus Maranguape que, como mostram estas e tantas outras histórias de vida, acolhe quem acredita que, pela educação, se faz um poder público melhor na cidade, no estado, no país.
Que venham mais. O Campus aguarda.
- Palavras-chave:
- IFCE Maranguape servidor público