Abril Indígena
IFCE destaca protagonismo indígena com formação, pesquisa e ações nos territórios
Projeto “Nós por Nós” e cartilha sobre mulheres Tremembé evidenciam produção de conhecimento e valorização cultural
Publicada por Francisco Aquino em 27/04/2026 ― Atualizada em 27 de Abril de 2026 às 09:49
Como parte das ações do Abril Indígena, o Instituto Federal do Ceará (IFCE) reforça o compromisso com a valorização dos povos originários por meio de iniciativas que integram formação, pesquisa e atuação direta nos territórios. Entre os destaques estão o curso de extensão em literacia digital “Nós por Nós” e a publicação da cartilha Memória Ancestral: biografização de mulheres indígenas Tremembé.
Formação conectada aos territórios
O curso “Nós por Nós” mobilizou educadores de 43 escolas indígenas do Ceará, envolvendo mais de 160 cursistas entre professores, gestores e educadores. A iniciativa foi promovida pela Pró-reitoria de Extensão do IFCE (Proext), em parceria com a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc), a Secretaria dos Povos Indígenas do Ceará (Sepince) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), no âmbito da Rede de Popularização da Ciência (Rede Pop Ceará).
As escolas atendidas estão distribuídas em diversos municípios cearenses, entre eles Acaraú, Aquiraz, Aratuba, Canindé, Caucaia, Crateús, Itapipoca, Itarema, Maracanaú, Monsenhor Tabosa, Novo Oriente, Pacatuba, Poranga, São Benedito, Tamboril e Tauá, evidenciando o alcance territorial da ação.
Participaram da formação educadores de diferentes povos indígenas do estado, entre eles Jenipapo-Kanindé, Tapeba, Pitaguary, Tremembé, Tapuya Kariri, Kanindé, Tabajara e Kariri, Potyguara, Kalabaça, Tupinambá e Gavião, evidenciando a diversidade cultural presente nos territórios atendidos pelo projeto.
Com carga horária de 80 horas e formato semipresencial, a formação foi estruturada em três trilhas. A primeira levou docentes e estudantes do IFCE, vinculados aos Núcleos de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi), aos territórios das escolas indígenas, promovendo formação presencial e diálogo com as realidades locais. A segunda trilha foi voltada à literacia digital, enquanto a terceira resultou na produção de materiais tecnológicos a partir das demandas das próprias comunidades.
Mas, afinal, o que é literacia digital? De forma simples, é a capacidade de utilizar tecnologias digitais de maneira crítica, consciente e criativa. Isso inclui não apenas saber usar ferramentas, mas também avaliar informações, produzir conteúdos e aplicar esses recursos para resolver problemas e comunicar ideias.
No contexto do curso, a literacia digital foi trabalhada como uma ferramenta de fortalecimento dos territórios, permitindo que as próprias comunidades produzissem e compartilhassem seus conhecimentos por meio de diferentes formatos.
Ao final da formação, foram produzidos 32 infoprodutos, entre videoaulas, cartilhas digitais, jogos educativos, documentários, podcasts, mapas interativos e sites de escolas e comunidades.
Para a coordenadora de Diversidade Étnico-racial da Proext, Tatiane Vieira Barros, a experiência reforça o papel da extensão como construção coletiva.
O curso foi pensado a partir do diálogo com as escolas indígenas e com suas realidades. A gente foi aos territórios, conheceu as demandas e, a partir disso, construiu uma formação que integrou a literacia digital com a Educação para as Relações Étnico-Raciais. O resultado são os infoprodutos, que expressam os interesses e as potencialidades de cada território
Segundo ela, a iniciativa também evidencia a potência do encontro entre saberes. “Quando a gente une literacia digital com a temática étnico-racial, conseguimos produzir conteúdos que dão visibilidade aos conhecimentos tradicionais. Esses materiais mostram que já existe tecnologia nos territórios, e que ela dialoga com as ferramentas digitais”, destaca.

O curso teve início em outubro de 2025 e foi finalizado em fevereiro de 2026, com evento de encerramento realizado no dia 16 de abril, transmitido pela TV IFCE (link da transmissão). Um e-book reunindo os materiais produzidos está em fase de elaboração.
Memória e protagonismo das mulheres Tremembé

Outra iniciativa que marca o Abril Indígena no IFCE é a cartilha Memória Ancestral: biografização de mulheres indígenas Tremembé, desenvolvida no campus de Paracuru. Confira mais informações na matéria completa da Agência IFCE: AQUI.
Resultado de um projeto de iniciação científica financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o material reúne 21 biografias de mulheres indígenas Tremembé, construídas a partir de entrevistas, registros históricos e memórias das comunidades.
Coordenado pela professora Stephanie Pinto e desenvolvido pela estudante Artemis Holanda, o trabalho busca valorizar trajetórias que, historicamente, foram invisibilizadas.
As histórias retratam mulheres de diferentes aldeias, como Praia, Telhas, Almofala, Barra do Mundaú, Lagoa Seca e Mangue Alto, localizadas em municípios como Acaraú, Itapipoca e Itarema. Além de resgatar memórias, a pesquisa fortalece o sentimento de pertencimento e contribui para o reconhecimento das identidades culturais.

Ações nos campi fortalecem o Abril Indígena
Além das iniciativas institucionais, os Núcleos de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) têm desenvolvido uma série de atividades nos campi e em suas regiões ao longo do Abril Indígena.
Campi como Crato, Quixadá, Paracuru, Acaraú, Iguatu e Fortaleza estão promovendo ações locais e regionais que incluem rodas de conversa, atividades formativas, eventos culturais e diálogos com comunidades indígenas.
Para Tatiane Vieira Barros, esse conjunto de iniciativas reforça a atuação institucional. “As ações evidenciam a importância do diálogo entre os conhecimentos tradicionais e científicos e fortalece a atuação dos Neabi nos territórios. É um movimento que amplia o alcance da extensão e contribui para uma formação mais comprometida com a diversidade e a realidade social”, conclui.
Essas ações ampliam o alcance das discussões sobre identidade, território e direitos dos povos originários, fortalecendo o papel do IFCE como espaço de formação, reflexão e compromisso social.
Diogenilson Aquino - Reitoria