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Dia dos Povos Indígenas

Cartilha destaca protagonismo de mulheres indígenas Tremembé

Pesquisa financiada pelo CNPq reúne memórias de 21 indígenas cearenses

Publicada por Andressa Sanches em 17/04/2026 Atualizada em 17 de Abril de 2026 às 09:34

A valorização dos saberes indígenas e o protagonismo feminino são o centro da cartilha Memória Ancestral: biografização de mulheres indígenas Tremembé, publicada em formato de e-book e resultado de uma pesquisa desenvolvida no campus de Paracuru do Instituto Federal do Ceará. Coordenado pela professora Stephanie Pinto e realizado pela estudante do curso de licenciatura em Ciências Biológicas Artemis Holanda, o material foi publicado de forma independente e está disponível para quem quiser acessá-lo aqui.

A publicação é produto do projeto do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) do IFCE, com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O projeto teve como finalidade propagar o conhecimento acerca das mulheres Tremembé em uma conexão com o universo das condições social, educacional, política e histórica, buscando, assim, “romper com processos universalizantes e solidificados socialmente, tendo em vista as renúncias anteriores que individualizavam essas mulheres e os preconceitos estabelecidos contra elas para que correspondessem ao que se esperavam delas”.

Memória ancestral

Adriana Tremembé
Adriana Tremembé

Para produzir as 21 biografias foram entrevistadas sete pessoas: Erbene Rosa Verissimo, José Giliarde de Sousa, Lauriane Tremembé, Maria Cleidiane Zacarias Santana, Maria de Jesus Sobrinho (Dijé), Mateus Tremembé e Nádia Rodrigues. Baseados em memórias, trabalhos acadêmicos e reportagens de várias épocas, foram retratadas Adriana Tremembé, Aurineide, Chica da Lagoa Seca, Conceição Moura, Diana, Dijé, Dona Lúcia, Erbene, Fabiana, Gilsa, Lindalva, Maria Bela, Maria Expedita, Maria Lídia, Maria do Nascimento, Maria Venância, Neide Teles, Neném Beata, Raimundinha, Telma Tremembé e Zeza.

Telma Tremembé
Telma Tremembé

O projeto teve como foco dar visibilidade às mulheres do povo Tremembé, moradoras de várias aldeias - Aldeia da Praia, Aldeia das Telhas, Almofala, Barra do Mundaú, Buriti do Meio, Lagoa Seca, Mangue Alto, Panã, Varjota e São José - localizadas nos municípios como Acaraú, Itapipoca e Itarema. O trabalho destaca suas trajetórias e contribuições históricas e presta homenagem àquelas que já se encantaram, como se referem às falecidas. A partir da biografização dessas mulheres, a pesquisa promove um processo de reterritorialização simbólica, fortalecendo o sentimento de pertencimento e o respeito à cultura e à terra.

Ajudar a retratar as ancestrais é algo íntimo para a coordenadora escolar da EIT Maria Venância, de Itarema, Maria Cleidiane Zacarias Santana. Contar as histórias dos antepassados às futuras gerações é falar da própria família. Ela ajudou com relatos e imagens de três parentes: a cunhada Gilsa, a sogra Inácia, mais conhecida como Lindalva, e a avó do seu esposo, Maria Expedita. “Conheço todas de perto.” Ela explica que o costume também é contar sobre elas em sala de aula. “Sempre fazemos esse tipo de atividades com os alunos. Além disso, é repassado no dia a dia pelas próprias famílias”.

“As mulheres Tremembé deixam de ser invisíveis [para os não indígenas e] se tornam protagonistas da própria história”, explica a professora Stephanie. “O projeto devolve à sociedade narrativas que sempre existiram, mas que foram pouco reconhecidas no campo acadêmico.” O projeto também influencia o ambiente educacional do IFCE, pois funciona como um “espelho” para os estudantes. “Eles percebem que a história não é feita apenas por grandes heróis nacionais, mas também por povos indígenas e, especialmente, por mulheres que lideram e preservam seus territórios”, impactando sobretudo os estudantes homens, que passam a refletir sobre novos conceitos de liderança.

As autoras

Artemis, Neném Beata e Stephanie - arquivo pessoal
Artemis, Neném Beata e Stephanie - arquivo pessoal

Com uma trajetória de 17 anos de pesquisa junto aos Tremembé, Stephanie Pinto explica que o e-book amplia investigações anteriores e dá continuidade a iniciativas como o projeto Feminismos Plurais na Terra da Luz. “Essa pesquisa não surgiu do nada. Ela é fruto de um percurso que busca integrar ciência, memória e compromisso social”, destaca. “A pesquisa evidencia a matripotência nas comunidades indígenas, contribuindo para combater o machismo e ampliar a consciência social dentro e fora da academia”, explica a professora. A docente considera que a iniciativa consolida um papel que vai além da formação técnica. “Transformamos o IFCE em um espaço de humanização e pensamento crítico, onde a ciência tem propósito social”, conclui.

A estudante Artemis Holanda Rodrigues dos Santos, bolsista do projeto, atuou diretamente na coleta de dados, entrevistas e registros fotográficos. “Foi meu primeiro contato real como pesquisadora. Isso me ajudou a encontrar um caminho acadêmico mais definido”, relata. A experiência também trouxe transformações pessoais e uma nova pesquisa acadêmica. “Conhecer mulheres Tremembé tão fortes foi inspirador. Me aproximei da cultura indígena e passei a enxergar a pesquisa de forma mais humana”, afirma a estudante, que atualmente desenvolve seu Trabalho de Conclusão de Curso sobre os saberes de outro povo indígena cearense intitulado “Conhecimentos Tradicionais Tapeba Sobre a Biodiversidade Local”.

Reportagem: Cláudia Monteiro (agencia@ifce.edu.br)

Fontes: Stephanie Pinto (stephanie.menezes@ifce.edu.br), Artemis Holanda (artemis.holanda62@aluno.ifce.edu.br)

Palavras-chave:
Extensão Pesquisa Povos indígenas

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