Iguatu
Estudo analisa riscos enfrentados por catadores de recicláveis
Pesquisa aponta precarização do trabalho, ausência de equipamentos de proteção e importância social dos catadores no manejo de resíduos sólidos
Publicada por Andressa Sanches em 02/06/2026 ― Atualizada em 3 de Junho de 2026 às 08:23
No dia a dia, quando descartamos objetos ou restos de alimentos e colocamos os resíduos para fora de casa, geralmente pensamos que o problema deixa de ser nosso. Como se o lixo deixasse de existir. Mas ele continua lá, trazendo problemas, poluição e adoecendo catadores e catadoras que lidam diariamente com a realidade do lixão de Iguatu.
Aqui tamo sujeito a tudo, do nada sobe o fogo e a fumaça, se não se juntar pra separar os restos de comida que chegam... o fogo chega.... aqui também tem rato, barata... vidro que quebra e a gente vai pegar as sacolas e se corta... por que nada é separado, aqui é tudo junto... e misturado”

Para avaliar os impactos dos perigos enfrentados por esses profissionais de materiais recicláveis no bairro Chapadinha, um projeto de pesquisa foi desenvolvido pelo curso de Bacharelado em Serviço Social do campus de Iguatu do Instituto Federal do Ceará. Intitulado “Quando a gente adoece, tudo para: o trabalho e a renda – influência da percepção dos/das catadores/as de materiais recicláveis sobre os riscos de saúde e ambientais para a realização do trabalho de forma segura”, o estudo busca compreender como esses trabalhadores percebem os riscos e de que forma essa percepção interfere na maneira como realizam suas atividades.
Com duração entre outubro de 2024 e agosto de 2025, a pesquisa não apenas produziu conhecimento acadêmico, como também buscou sensibilizar a sociedade para a importância da educação ambiental, do descarte correto do lixo e da valorização do trabalho dos catadores. Entre as perspectivas apontadas pelo estudo esteve o fortalecimento da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis (ASCMARI), por meio do diálogo com instituições públicas e da construção de parcerias capazes de garantir mais segurança, reconhecimento social e condições dignas de trabalho.
Uma pessoa identificada pelo estudo como RSC, explica as condições de trabalho que catadores e catadoras enfrentam diariamente. “Se adoecer morre, morre de fome por que não tem outro jeito, os amigos ainda dão uma coisinha, reparte, mas nos primeiros dias, depois... quem é que vai tirar do seu sustento para sustentar outro? Derina mesmo caiu da cama quebrou o ombro e foi preciso até vocês ajudarem, me lembro vocês trazendo feira pra ela, mas outros aqui adoeceu vem trabalhar doente”, lamenta.

O estudo foi desenvolvido no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), com financiamento da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap). O projeto foi coordenado pela professora Adriana Alves da Silva, do curso de Bacharelado em Serviço Social, e contou com observações de campo, aplicação de questionários e realização de entrevistas com catadores que atuavam diariamente no lixão de Iguatu.
Além da professora Adriana, participaram da pesquisa a bolsista Maria Tereza de Sousa Barros, e os estudantes voluntários Maria Eduarda Oliveira e Silva e Maria Simone Alves Santos. Para a equipe responsável, dar visibilidade à realidade vivida pelos catadores representou um passo fundamental para fomentar debates sobre gestão de resíduos sólidos, justiça ambiental e direitos sociais, contribuindo para a formulação de políticas públicas voltadas à inclusão, à saúde e à sustentabilidade no município.
Metodologia da pesquisa
A pesquisa teve como público-alvo 30 catadores e catadoras, sendo 15 homens e 15 mulheres, todos maiores de 18 anos, que atuavam há pelo menos um ano no lixão de Iguatu, não possuíam deficiência e aceitaram participar voluntariamente do estudo. A abordagem adotada foi qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, permitindo compreender as experiências, percepções e práticas desses trabalhadores a partir de seus próprios relatos.
As visitas ao lixão aconteceram a cada quinze dias, com observação direta da rotina de trabalho por cerca de uma hora e meia em cada encontro. Também foram utilizados questionários estruturados e entrevistas semiestruturadas, que possibilitaram identificar tanto os riscos objetivos do ambiente quanto a forma como eles eram percebidos pelos catadores.
O projeto também previu articulações institucionais, incluindo visitas à Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMA) e ao Consórcio Regional de Resíduos do Alto Jaguaribe, com o objetivo de buscar parcerias que contribuíssem para o fortalecimento da pesquisa e para a construção de estratégias voltadas à melhoria das condições de trabalho dos catadores.
Entre os principais objetivos do estudo estiveram identificar os riscos à saúde e ao meio ambiente presentes no cotidiano da catação, compreender o nível de consciência dos trabalhadores sobre esses perigos e analisar como essa percepção influenciava atitudes de autoproteção ou exposição, contribuindo para o adoecimento ou para a prevenção de agravos à saúde.
Quais foram as conclusões do projeto?
Os dados obtidos revelaram um cenário de alto risco à saúde e à integridade física dos catadores e catadoras que atuavam no lixão de Iguatu. Entre os problemas mais frequentes estiveram acidentes com objetos cortantes, contato direto com produtos tóxicos, além de doenças respiratórias, de pele, musculares e intestinais. Também foram recorrentes dores na coluna e nas articulações, causadas pelo esforço físico excessivo e pelo transporte de grandes volumes de materiais ao longo de jornadas prolongadas.
Outro aspecto identificado pelo estudo foi o consumo, por parte de alguns trabalhadores, de alimentos encontrados durante a coleta de materiais recicláveis, prática que pôde resultar em intoxicações e agravar quadros de adoecimento.
A rotina de trabalho, geralmente marcada por longas horas sem pausas adequadas, somada à falta de equipamentos de proteção individual e à inexistência de um ambiente seguro, ampliou os riscos de situações graves, como mordidas de animais, prensagens e atropelamentos.
Apesar das condições adversas, a pesquisa também apontou que muitos catadores reconheciam a importância do trabalho que realizavam e construíam, no cotidiano do lixão, relações de solidariedade e pertencimento, fundamentais para a permanência na atividade. O estudo destacou ainda a relevância ambiental desse trabalho, ao indicar que cerca de 90% dos materiais recicláveis que chegavam às indústrias passavam, inicialmente, pelas mãos desses trabalhadores, contribuindo de forma decisiva para a redução do volume de resíduos e para a preservação dos recursos naturais.
Outro desdobramento da pesquisa é a publicação do livro Questão ambiental, serviço social e desafios humanitários: semeaduras desde o Ceará. Lançada pela Editora IFCE (clique aqui e acesse gratuitamente), a obra reúne artigos para refletir sobre a questão ambiental a partir de realidades diversas e contraditórias no Ceará, particularmente no Centro Sul do Estado. Os textos dialogam entre si sobre a questão ambiental e o Serviço Social, bem como riscos e desastres decorrentes dos lixões e a forma como catadores de materiais reutilizáveis se organizam na região Centro Sul do Ceará. Estão presentes também escritos sobre a mineração de urânio e fosfato no sertão do Ceará e sobre as mudanças climáticas.
Reportagem: Amanda Alboino (agencia@ifce.edu.br)
Fonte: Professora Adriana Alves da Silva (adrianaalves@ifce.edu.br)