Caminhada da Seca
Pesquisa do IFCE pode ajudar a transformar tradição de Senador Pompeu em patrimônio do Ceará
Trabalho desenvolvido pelo campus de Quixadá reúne entrevistas, documentos e registros históricos sobre a manifestação realizada em Senador Pompeu
Publicada por Andressa Souza em 06/11/2026 ― Atualizada em 6 de Novembro de 2026 às 17:10

A Caminhada da Seca - manifestação religiosa e cultural realizada há mais de quatro décadas em Senador Pompeu, no Sertão Central cearense e que este ano será realizada no domingo, dia 8 de novembro - é objeto de um trabalho de pesquisa e documentação desenvolvido pelo Instituto Federal do Ceará (IFCE). A iniciativa busca produzir subsídios técnicos para o registro da Caminhada como patrimônio imaterial na esfera estadual, valorizando uma tradição que mantém viva a memória das vítimas da seca de 1932.
Por meio de uma ação de extensão, professores e estudantes vão realizar entrevistas, reunir relatos, fotografias, documentos e registros audiovisuais para contribuir com o processo de reconhecimento da manifestação como Patrimônio Cultural Imaterial do Ceará. Intitulado “Tecendo Continuidades: Formação e Patrimonialização da Caminhada da Seca”, o projeto é coordenado pelo professor do campus de Quixadá Aterlane Martins e conta com a participação de Emmanuel Lopes, integrante da Secretaria da Cultura do Ceará, e dos bolsistas Rúben Asevêdo e Emanuel William, ambos do campus de Quixadá, e Carlos Jefferson, do campus de Fortaleza. A ação será desenvolvida entre os meses de novembro e dezembro de 2026, com apoio da Pró-Reitoria de Extensão do IFCE.
O trabalho de campo terá como um dos momentos centrais o acompanhamento da 42ª Caminhada da Seca, realizada no próximo dia 8 - tradicionalmente a caminhada é sempre no segundo domingo de novembro. Durante a manifestação, a equipe irá ouvir moradores, organizadores, devotos e agentes culturais para compreender como a tradição é mantida, quais significados assume para seus participantes e de que maneira a memória da seca de 1932 é transmitida entre gerações.
Pesquisa vai reunir documentação para o processo de reconhecimento
O reconhecimento da Caminhada da Seca como patrimônio cultural imaterial depende de um processo de documentação capaz de demonstrar sua trajetória histórica, seus significados para a comunidade e as formas pelas quais a manifestação é organizada e transmitida. É nessa etapa que se concentra a contribuição do IFCE.
O trabalho junto à comunidade promove a memória da devoção às Santas Almas da Barragem e fortalece a identidade cultural dos senadorenses. Cada registro oral e imagético contribuirá para demonstrar a relevância da Caminhada da Seca para esta cidade, historicamente marcada pela seca de 1932 e pela experiência do Campo de Concentração do Patu.
A equipe realizará levantamento de fontes históricas, visitas técnicas, entrevistas e produção de registros fotográficos e audiovisuais, além da identificação dos agentes culturais envolvidos na continuidade da tradição. As atividades incluem visitas ao antigo Campo de Concentração do Patu, ao Cemitério da Barragem e a outros espaços relacionados à memória da seca de 1932. Durante o trabalho de campo, serão coletados relatos sobre a história da Caminhada, as práticas de devoção às Santas Almas da Barragem e os significados atribuídos à manifestação por diferentes participantes.
O material será posteriormente organizado e analisado, com transcrição de entrevistas, catalogação de documentos e sistematização dos registros produzidos. Ao final, a equipe elaborará um relatório técnico destinado a contribuir com a instrução do processo de reconhecimento da Caminhada como patrimônio cultural imaterial.
A proposta prevê que a documentação seja construída em diálogo com a comunidade, respeitando as memórias individuais e coletivas e o protagonismo dos moradores, devotos e organizadores que mantêm a manifestação.

Trabalho dá continuidade a pesquisas anteriores
A iniciativa de 2026 não é a primeira participação do IFCE nas ações de valorização da memória do Campo de Concentração do Patu. O projeto dá continuidade a trabalhos desenvolvidos anteriormente, especialmente à experiência realizada em 2022, voltada ao apoio ao processo de patrimonialização desse espaço histórico.
A nova etapa amplia o foco sobre a Caminhada da Seca como manifestação cultural, reunindo informações que poderão contribuir para seu reconhecimento e para a preservação dos conhecimentos, práticas e experiências associados à tradição.
O trabalho também envolve a formação de estudantes do IFCE. Os três bolsistas de extensão participarão das atividades de planejamento, pesquisa, entrevistas, levantamento documental e organização dos resultados. Antes das atividades de campo, os participantes passarão por formação sobre patrimônio cultural material e imaterial, processos de registro e salvaguarda, metodologias de pesquisa e princípios éticos para a documentação de relatos e memórias.
A ação prevê ainda atividades de educação patrimonial e articulação com representantes das secretarias de cultura, agentes culturais e moradores de Senador Pompeu.
Uma caminhada para não esquecer a seca de 1932

A origem da Caminhada está relacionada a um dos episódios mais violentos da história das secas no Ceará. Em 1932, o poder público estadual implantou sete campos de concentração destinados a controlar o deslocamento de retirantes que fugiam da estiagem em direção a Fortaleza. Um deles foi instalado no Patu, em Senador Pompeu, por onde passaram milhares de pessoas provenientes do Ceará e de estados vizinhos.
Submetidos a condições precárias de sobrevivência, os retirantes enfrentaram fome, doenças e mortes. A lembrança das vítimas permaneceu na memória da população local e deu origem a práticas de devoção popular às chamadas Santas Almas da Barragem.
Em 1982, por iniciativa do então pároco de Senador Pompeu, padre Albino Donati, foi instituída a Caminhada da Seca. Desde então, a manifestação reúne moradores, devotos e participantes de outras localidades em um percurso que parte da cidade em direção ao Cemitério da Barragem, espaço associado à memória das vítimas do confinamento.
Mais do que uma manifestação religiosa, a Caminhada tornou-se uma forma coletiva de preservar a história do Campo de Concentração do Patu. Ao reunir fé, memória e referências à experiência dos retirantes, a tradição também mantém em discussão as desigualdades sociais e as consequências históricas das políticas adotadas durante as grandes secas no Ceará.
O reconhecimento da manifestação como patrimônio cultural imaterial busca contribuir para ampliar sua visibilidade, valorizar os grupos responsáveis por sua continuidade e fortalecer ações de preservação e transmissão dessa referência cultural às futuras gerações.
Com a produção dos registros históricos e a participação da comunidade, o IFCE irá oferecer elementos técnicos para que a Caminhada da Seca seja reconhecida não apenas por sua dimensão religiosa, mas também por seu significado para a memória social do Ceará e para a história das populações sertanejas.
- Palavras-chave:
- Cultura Patrimônio