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Meio ambiente

Nascem primeiras tartarugas de ninhos monitorados pelo IFCE em Paracuru

130 filhotes eclodiram na Praia da Piriquara, acompanhados pela Rede Maré Viva de conservação marinha

Publicada por Andressa Sanches em 31/03/2026 Atualizada em 31 de Março de 2026 às 11:17

Praia da Piriquara, litoral oeste do Ceará, 16 de março de 2026: 130 recém-nascidos filhotes de tartaruga-de-pente, espécie ameaçada de extinção, saíram do ninho e percorreram o caminho das areias até o oceano. Foi o primeiro nascimento oficial registrado pela recém-criada Rede Maré Viva de conservação marinha, uma parceria entre o campus Paracuru do Instituto Federal do Ceará (IFCE), as Secretarias de Turismo e Meio Ambiente, a Prefeitura de Paracuru, a gestão das Áreas de Proteção Ambiental e a participação ativa da comunidade local.

A Rede Maré Viva nasce como desdobramento de quase uma década de atuação do projeto Amigos do Mar, também desenvolvido pelo IFCE em Paracuru. Desde 2018, a iniciativa concentra esforços em educação ambiental e conservação da vida marinha, promovendo mutirões de limpeza e ações de sensibilização sobre o impacto do lixo e da poluição para a biodiversidade oceânica. Já foram coletadas mais de duas toneladas de resíduos sólidos e mais de 13 mil bitucas de cigarros pelos professores, estudantes e voluntários do projeto.

O tempo e o trabalho constante trouxeram uma visão privilegiada da dinâmica costeira. "Infelizmente, o alerta inicial veio de forma negativa, com registros frequentes de mortes de tartarugas e registros de possíveis ninhos relatados pela comunidade”, explica a professora Luciana de Castro, coordenadora do projeto Amigos do Mar. “O ponto de virada ocorreu no ano passado, quando identificamos rastros e um ninho de desova. A partir dessa evidência, identificamos a urgência de gerar dados técnicos que subsidiem estratégias reais de conservação”.

Assim surgiu a Rede Maré Viva, uma evolução operacional motivada pela consolidação do braço técnico-científico do projeto Amigos do Mar e que une academia, poder público e sociedade civil em uma ação concreta e participativa de preservação ambiental. A articulação foi catalisada pela expertise do IFCE para pesquisar e gerar dados científicos sobre as tartarugas marinhas, além da credibilidade construída pela prática extensionista ao longo de oito anos de mutirões de limpezas de praias, palestras, exposições e debates sobre proteção e conservação da biodiversidade marinha.

Através da Rede, fortalecemos a articulação com a Secretaria de Turismo e Meio Ambiente de Paracuru e com a gestão das Unidades de Conservação locais. É o Amigos do Mar amadurecendo sua estrutura para oferecer uma resposta técnica, política e comunitária à demanda de conservação que o nosso município necessita.

profa. Luciana de Castro

O papel das tartarugas no ecossistema

“As tartarugas marinhas não utilizam as praias apenas como local de deposição de ovos, mas fazem parte de um complexo conjunto de interações ecológicas, sendo consideradas espécies-chave para a manutenção da saúde dos ecossistemas marinhos e costeiros”, explica a professora Cibele Monteiro, também integrante do projeto Amigos do Mar e da Rede Maré Viva. 

Rede Maré Viva acompanha nascimento de tartarugas marinhas em Paracuru (1)
Rede Maré Viva acompanha nascimento de tartarugas marinhas em Paracuru (1)

De acordo com a pesquisadora, diferentes espécies de tartarugas contribuem para a manutenção de habitats e cadeias tróficas no ambiente marinho, auxiliando no controle de pradarias, regulando populações de organismos como águas-vivas e esponjas, e participando da ciclagem de nutrientes ao se deslocarem por longas distâncias. Já no ambiente terrestre, mesmo os ovos que não eclodem contribuem para a fertilização da areia, enriquecendo o ambiente costeiro.

Após a eclosão, a abertura assistida dos ninhos permite avaliar o sucesso reprodutivo e verificar as condições do ninho ao final do período de incubação, de forma a proteger esses espaços em ambiente natural. “Esse procedimento permite contabilizar cascas, identificar ovos não eclodidos, filhotes mortos ou retidos e compreender possíveis causas de insucesso, gerando informações fundamentais para o monitoramento e a conservação das espécies”, explica a professora Cibele Monteiro.

Atualmente, a Rede Maré Viva realiza o monitoramento de cerca de 20 ninhos ao longo das praias de Paracuru. As ações acontecem nos períodos noturno e matutino, garantindo maior eficiência na identificação, proteção e acompanhamento das áreas de desova. Porém, mesmo com o acompanhamento constante, é impossível prever com exatidão quando cenas de soltura de filhotes se repetirão, pois só ocorrem em nascimentos sem interferência direta no processo de eclosão. 

Um aspecto fundamental desse processo é o deslocamento dos filhotes desde o ninho até o mar. Esse percurso é essencial para sua sobrevivência, pois permite a impressão ambiental (imprinting), mecanismo pelo qual os filhotes registram características da praia de nascimento, o que futuramente orientará o retorno das fêmeas adultas para desova. Além disso, essa caminhada contribui para o fortalecimento muscular e para a ativação de respostas fisiológicas importantes para a vida no ambiente marinho.

profa. Cibele Monteiro

Quando tudo ocorre naturalmente, a equipe pode acompanhar o momento e, se possível, permitir a participação orientada da comunidade. Nessas ocasiões, são fornecidas explicações sobre o ciclo de vida das tartarugas marinhas, a importância da conservação e os cuidados necessários para não interferir no trajeto dos filhotes até o mar. "Trata-se de uma experiência com forte potencial educativo e sensibilizador, que contribui para o engajamento da população nas ações de proteção dessas espécies”, explica a professora Cibele Monteiro.

Da educação ambiental à ciência cidadã

Equipe do IFCE da Rede Maré Viva
Equipe do IFCE da Rede Maré Viva

Pelo IFCE, são três professores e dez estudantes dos cursos de Tecnologia em Gestão Ambiental e Licenciatura em Ciências Biológicas do campus Paracuru diretamente envolvidos na Rede Maré Viva. O grande diferencial da iniciativa, no entanto, é a integração com a comunidade local pelo modelo de ciência cidadã. 

“Ao unirmos o braço técnico e capilaridade social do Amigos do Mar (IFCE), criamos uma rede onde o pescador e o bugueiro se tornam agentes de conservação. Isso é fundamental para o Ceará, onde o uso múltiplo da zona costeira (turismo e pesca) exige um ordenamento territorial baseado em fatos, não em suposições”, comenta a professora Luciana de Castro.

O protagonismo dos chamados “agentes sentinelas” (bugueiros, pescadores, marisqueiras) é fundamental. "O objetivo é que esses atores, que já vivem o dia a dia da praia, sejam nossos olhos e ouvidos”, afirma a professora Luciana de Castro. O ninho de onde eclodiram os 130 filhotes de tartaruga-de-pente foi inicialmente avistado por João Braga da Silva, bugueiro da região, que comunicou à equipe da Rede para as providências de proteção necessárias. A legislação ambiental federal brasileira proíbe mexer, remover ou interferir em ninhos e animais silvestres sem autorização.

Entre os próximos passos da iniciativa, está prevista uma formação para a comunidade local, de forma a integrar moradores e usuários do mar no trabalho de preservação ambiental e capacitá-los como agentes ativos na conservação, unindo o saber tradicional ao monitoramento científico.

Reportagem: Andressa Souza (agencia@ifce.edu.br)

Fontes: professoras Luciana de Castro (lucianacastro@ifce.edu.br) e Cibele Monteiro (cibele.monteiro@ifce.edu.br)

Palavras-chave:
Paracuru Rede Maré Viva biodiversidade conscientização ambiental meio ambiente tartarugas marinhas

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