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Mulheres e Meninas na Ciência

IFCE amplia protagonismo feminino na ciência e tecnologia

Projetos de pesquisa e extensão são desenvolvidos em todo o Ceará para fortalecer a equidade de gênero

Publicada por Andressa Sanches em 10/02/2026 Atualizada em 13 de Fevereiro de 2026 às 13:35

O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) vem consolidando, nos últimos anos, um conjunto expressivo de iniciativas voltadas à equidade de gênero, especialmente nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (em inglês, STEM). A partir de projetos de pesquisa, extensão e inovação pedagógica, professoras de diferentes campi têm construído redes de apoio, formação e empoderamento feminino que impactam milhares de estudantes cearenses.

No campus de Limoeiro do Norte, a professora Renata Chastinet coordena ações que atuam diretamente na formação científica de meninas desde o ensino fundamental. O projeto, estruturado em fases, começou com a aproximação de alunas do Ensino Médio às áreas de Exatas e evoluiu para uma articulação com escolas municipais, envolvendo cinco unidades e cerca de 60 participantes, majoritariamente meninas do 9º ano. Ao todo, 21 trabalhos foram apresentados em eventos científicos, com credenciamento para feiras nacionais.

Em 2025 foram diversas atividades como visitas às escolas, onde foram proferidas palestras, oficinas de Método Científico e de Uso de Inteligência Artificial na Educação, que culminaram na realização da I Mostra Limoeirense de Projetos do Ensino Fundamental (MOSLIPRINHO) entre 26 e 28 de novembro de 2025.

Mais do que resultados acadêmicos, o foco está na construção da autoconfiança, da sororidade e de um ambiente de cuidado entre as estudantes. A criação de espaços de celebração, como o Prêmio Aninhas — inspirado no Prêmio ANAS Mulher e Ciência — reforça a valorização da participação feminina e estimula o protagonismo das alunas como pesquisadoras desde cedo.

Nosso objetivo é criar a ideia de um núcleo de mulheres pesquisadoras, espalhar o conceito de sororidade, de mulheres apoiando mulheres, de trabalhar a autoestima. Sempre que alguém é chamado para ir para a lousa responder alguma coisa, 90% das pessoas que vão são mulheres, mesmo quando a sala é majoritariamente masculina. Então a gente tem que criar esse ambiente de cuidado para essas pessoas que se expõem, para elas protegerem as amigas que se expõem.

Professora Renata Chastinet

Novas formas de ensinar Matemática

Do campus de Canindé, a professora Mikaelle Barboza coordena o projeto “Laboratório Maker para o Ensino de Matemática com vistas à Equidade: Mulheres na Matemática”, financiado pela FUNCAP por meio do edital Mulheres na Ciência. Implantados em 2025 nos campi Canindé e Fortaleza, os laboratórios buscam romper estereótipos de gênero ao integrar Matemática, tecnologias digitais e cultura maker em práticas colaborativas. O projeto conta com o apoio do campus de Sobral do IFCE, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Oficina Maker realizada em Canindé
Oficina Maker realizada em Canindé

O objetivo é desenvolver um projeto de difusão científica e tecnológica por meio de um Laboratório Maker, como estratégia para promover a equidade educacional e incentivar a participação de meninas e mulheres na Matemática. Para isso, prevê o desenvolvimento de materiais didáticos, a formação docente e a realização de atividades práticas interdisciplinares destinadas à comunidade acadêmica do IFCE, da UECE, da UNILAB e às escolas parceiras da Educação Básica.

Assim, busca-se oferecer cursos e formações sobre impressão 3D e programação básica voltadas ao ensino da Álgebra, como foco especial no acesso democrático de meninas e mulheres à área. Além disso, pretende-se criar recursos que facilitem a visualização de representações dos conceitos algébricos e produzir kits didáticos acessíveis e gratuitos, utilizando impressoras 3D e máquinas de corte a laser.

“Embora recente, a iniciativa já apresenta impactos positivos, especialmente na formação de licenciandas em Matemática, que desenvolvem competências técnicas e socioemocionais em ambientes inclusivos”, explica a professora Mikaelle. Ela enfatiza que o projeto também envolve estudantes homens, promovendo a desconstrução de preconceitos e a construção de relações mais empáticas e cooperativas. “Para o ano de 2026 estão previstas ações formativas, incluindo cursos de formação maker voltados para professoras da Educação Básica, bem como a realização de palestras e exposições em escolas parceiras do projeto.

Ainda para 2026, encontra-se em fase de implementação o Portal Maker, que contará com uma rede colaborativa online destinada à pesquisa de acervos 3D, ao acompanhamento de projetos em desenvolvimento e à divulgação de publicações. É importante salientar que todas as ações são realizadas em parceria com uma rede de pessoas que apoiam e acreditam no projeto, envolvendo professoras, professores, alunas e alunos do IFCE (campi Canindé, Fortaleza e Sobral), bem como docentes de outras instituições, como a UECE e a UNILAB – Redenção. Dessa forma, a equipe compreende que a união de esforços é fundamental para romper barreiras de gênero e fortalecer o apoio coletivo a essa causa.

Professora Mikaelle Barboza

Mikaelle e Ana Cláudia no Prêmio Anas 2025
Mikaelle e Ana Cláudia no Prêmio Anas 2025

Vinculado ao projeto do Laboratório Maker está o estudo “Ensino exploratório, formação docente e pensamento algébrico de meninas e adolescentes com vistas à equidade”, orientado pela professora Ana Cláudia Gouveia, do campus de Fortaleza. Trata-se de um projeto de pesquisa de iniciação científica cujo foco é o desenvolvimento do pensamento algébrico em estudantes da Educação Básica, visto que este conteúdo ganhou maior destaque nos documentos curriculares a partir da inserção da Álgebra na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como unidade temática, desde os anos iniciais do Ensino Fundamental até o Ensino Médio.

A justificativa do estudo é a constatação de que é baixo o desempenho de estudantes observado em três avaliações de larga escala: Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (SPAECE), Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA). O que indica que o aprendizado algébrico constitui uma problemática relevante de investigação entre alunos e alunas do Brasil. Soma-se a isso o recorte de gênero, uma vez que dados das referidas avaliações apontam maior afastamento de meninas e adolescente desses e de outros aprendizados matemáticos, como é possível ver em dados da OCDE que atestam como meninas ficam atrás dos meninos em desempenho matemático em 40 países; ou da própria avaliação PISA que apresenta como no Brasil meninos superam meninas em oito pontos em matemática, confirmando o mais baixo desempenho das meninas em relação aos meninos.

O estudo vem sendo desenvolvido desde setembro de 2025, com previsão de término em agosto de 2026. “Nos meses de fevereiro e março de 2026 serão realizados os planejamentos das formações e das tarefas exploratórias a serem desenvolvidas no âmbito do ensino exploratório. Em abril e maio vão ocorrer as formações com professores de matemática de uma escola parceira do PIBID Matemática, consolidando a articulação entre o Ensino Superior e a Educação Básica no desenvolvimento das atividades propostas pelo projeto”, explica a professora Ana Cláudia. “Nas formações serão aplicados questionários junto às professoras participantes e aos seus estudantes, após sessões de ensino exploratório. Embora a pesquisa busque dados relativos às professoras e às suas estudantes do Ensino Médio, professores e estudantes do gênero masculino poderão participar das formações e aulas respectivamente pelo braço extensionista do projeto”, complementa. A ideia é desenvolver a análise qualitativa dos dados entre maio e julho.

Para a bolsista Maria Cecília Alves de Oliveira, 19 anos, aluna do 4° semestre de licenciatura em Matemática do campus Fortaleza, “participar deste projeto tem sido muito especial, pois ele tem me ajudado a entender melhor minha trajetória, especialmente como mulher nas áreas exatas, além de marcar meu primeiro contato com a pesquisa científica e contribuir para meu crescimento acadêmico”. Cecília divide as atividades com Micaele Fonseca, estudante de Matemática, bolsista do Pé de Meia Licenciaturas.

Quando tive contato com a temática desse projeto, me interessei imediatamente, pois vai ao encontro de questões que considero muito relevantes. Sabemos que a área de Exatas, historicamente, é vista como um espaço predominantemente masculino, e isso acaba afastando muitas meninas e adolescentes. Nesse sentido, o projeto tem grande importância ao investigar por que esses estereótipos foram construídos e, principalmente, como podemos desconstruí-los. Para minha vida acadêmica, essa experiência é muito significativa, pois, enquanto mulher que cursa uma área de Exatas, compreender esses processos e aprender formas de incentivar e apoiar outras meninas é essencial.

Micaele Fonseca, bolsista do Pé de Meia Licenciaturas

Redes consolidadas e impacto social: Divas e Meninas Conectadas

Do campus Horizonte, a professora Carina Teixeira coordena o Divas, que há dez anos atua na inclusão e no empoderamento de mulheres em Tecnologias da Informação e Comunicação. Com parcerias institucionais e atuação multicampi, o projeto já beneficiou cerca de 3.700 pessoas no Ceará. Apenas nos últimos seis meses, foram realizadas diversas oficinas e ações socioeducativas, como rodas de conversa, palestras e participações em feiras, alcançando um total de 1.236 pessoas, consolidando-se como uma ferramenta essencial de interiorização da ciência nos campi de Horizonte, Aracati e Tianguá, além de Fortaleza, onde Carina dá aulas no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Computação (PPGCC/IFCE). “Hoje, sou a coordenadora geral do projeto, que conta com mais quatro professoras, 11 bolsistas e cerca de 10 voluntários”, explica a professora Carina. A iniciativa alia rigor científico e sensibilidade social, contribuindo para a permanência, o êxito acadêmico e a inserção profissional de mulheres na tecnologia, além de formar pesquisadores reconhecidos nacionalmente.

Projeto Divas em Aracati
Projeto Divas em Aracati

Desde o início, o projeto é parceiro do Programa Meninas Digitais da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e estabeleceu parcerias estratégicas com outras instituições, como o Ministério Público do Trabalho (MPT) e inúmeras escolas públicas do interior do Ceará. Além disso, “a dedicação à equidade e à formação de futuras pesquisadoras continua ativa, sendo o Divas o precursor de trabalhos acadêmicos no Ceará sobre a permanência, o êxito e a evasão de estudantes mulheres em cursos de tecnologia. A partir dele nasceram as versões Divas Reloaded, Divas+ e Divas Novos Horizontes, com financiamentos públicos que ampliaram o alcance das ações para o interior do Ceará, fortalecendo comunidades escolares e redes de inovação educacional”, detalha a professora Carina. No seu financiamento mais recente, em 2025, o projeto passou a integrar a Rede de Extensão Intersetorial do Ceará (INTERSET-CE), financiada pelo Ministério da Educação (MEC).

Como coordenadora e idealizadora, vejo o Divas não apenas como um projeto, mas como a materialização de um compromisso pessoal e profissional com a equidade de gênero e a formação de recursos humanos de excelência. O projeto representa para mim uma poderosa e estruturada rede de aprendizado, empoderamento e afeto, permitindo criar caminhos para que outras mulheres também possam caminhar e brilhar na ciência. Em todas as minhas palestras, mesas-redondas ou podcasts, tenho muito orgulho de apresentar o Divas sob um rigoroso olhar científico, mas sempre conectado à realidade e à história de vida de cada menina que passa pelo projeto. Acredito que a verdadeira ciência se faz ao unir o rigor técnico à sensibilidade social, por isso, além de discutir resultados de análises de dados do contexto do IFCE, busco dar voz aos desafios e superações das nossas estudantes. Meu objetivo nessa jornada de divulgação científica é engajar tanto quem já atua na tecnologia quanto o público em geral, provando que o espaço acadêmico é um lugar de legítimo pertencimento para as mulheres. Ao compartilhar essas experiências, reforço que a ciência aplicada é capaz de transformar territórios de silêncio em espaços de protagonismo feminino e inovação.

Professora Carina Teixeira

Equipe do projeto Meninas Conectadas
Equipe do projeto Meninas Conectadas

Em Tianguá, a professora Raquel de Vasconcelos coordena localmente o Divas em conjunto com a professora Alice Nayara, além do projeto Meninas Conectadas, que alcançou diretamente 245 mulheres por meio de ações presenciais e digitais. O projeto cria espaços de acolhimento, troca e visibilidade, fortalecendo a identidade das estudantes como pertencentes à computação. Premiações em eventos como o ENICIT e o Prêmio ANAS evidenciam os resultados dessa atuação. “Mais do que um número, esse alcance representa trajetórias que vêm sendo transformadas, estudantes que passaram a se reconhecer como pertencentes à área da computação, que fortaleceram sua autoconfiança e que encontraram apoio para permanecer e progredir em cursos historicamente marcados pela baixa participação feminina”, comemora.

As estudantes citadas como exemplo são Thalita Reis, premiada com o 2º lugar no Prêmio Anas 2025, e Luzia Batista Simão, cujo trabalho foi premiado no ENICIT 2025 com o 3º lugar na categoria. “O empoderamento feminino na ciência e tecnologia não beneficia apenas as mulheres, ele transforma positivamente todo o ambiente acadêmico. A presença feminina mais ativa nesses espaços amplia a diversidade de perspectivas, estimula formas mais colaborativas de trabalho. Equipes diversas tendem a produzir conhecimento mais inovador e conectado às necessidades reais da sociedade. Para os estudantes e profissionais homens, conviver em um ambiente mais equilibrado em termos de gênero contribui para o desenvolvimento de competências humanas essenciais, como respeito à diferença, empatia, comunicação e trabalho em equipe. Além disso, rompe estereótipos históricos sobre quem “pode” ou “deve” atuar na tecnologia, construindo uma cultura acadêmica mais justa e democrática”, define.

Reportagem: Cláudia Monteiro (agencia@ifce.edu.br)

Fontes: Professoras Renata Chastinet (rchastinet@ifce.edu.br), Mikaelle Barboza (mikaelle.cardoso@ifce.edu.br), Ana Cláudia Gouveia (anaclaudia@ifce.edu.br), Raquel de Vasconcelos (raquel_silveira@ifce.edu.br), Carina Teixeira (carina.oliveira@ifce.edu.br)

Palavras-chave:
Mulheres e Meninas na Ciência Protagonismo feminino equidade de gênero

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