Tecnologia e história
Plataforma com IA auxilia na transcrição de documentos históricos manuscritos
Iniciativa foi desenvolvida por professores e alunos do campus de Aracati
Publicada por Andressa Sanches em 28/01/2026 ― Atualizada em 28 de Janeiro de 2026 às 08:19
O processo de transcrição automatizada de documentos históricos manuscritos com as soluções atualmente disponíveis no mercado permanece economicamente inviável para instituições brasileiras que lidam com grandes acervos. Além do alto custo operacional, a dependência de plataformas estrangeiras, diante da ausência de uma alternativa nacional consolidada, impõe barreiras significativas à adoção ampla dessas tecnologias em projetos de pesquisa e preservação documental. Uma plataforma online, em desenvolvimento no campus de Aracati do Instituto Federal do Ceará (IFCE), pretende mudar essa situação.

Trata-se da Transcritor-IA, ferramenta que utiliza inteligência artificial voltada à transcrição assistida e à curadoria de documentos históricos manuscritos, facilitando o acesso, a pesquisa e a análise de acervos documentais digitalizados. A plataforma está disponível em https://transcritor-ia.com.
A ideia surgiu a partir de uma necessidade prática do professor George Ney, interessado em genealogia, que acumulava diversos documentos históricos digitalizados, mas sem meios de aplicar técnicas computacionais de pesquisa e extração de dados. Isso porque o processo depende da transcrição paleográfica, ainda majoritariamente manual. “A partir dessa demanda, concebi o projeto, definimos a arquitetura e iniciamos o desenvolvimento com apoio de estudantes. Criamos uma versão inicial funcional, embora ainda com instabilidades e limitações técnicas, naturais em um processo de aprendizado e experimentação”, informa o professor Raimundo Valter, doutor na área de Inteligência Artificial.
Conheça o Transcritor-IA
Entenda como funciona a plataforma
Há mais de 30 anos dedicado a pesquisas de natureza histórica, em particular sobre história, genealogia e povoamento do Ceará, o professor George Ney ressalta como motivador para enfrentar o problema da criação da plataforma, a necessidade de preservar e, sobretudo, de conhecer melhor o conteúdo dos acervos documentais, considerando um manancial imenso de documentos que estão se perdendo com o tempo. Ele lembra que há uma tentativa de algumas instituições de salvar o máximo do acervo documental cearense, sobretudo dos séculos XVIII e XIX, que conta um pouco da nossa história, mas lamenta que, em geral, o poder público não cuide bem desse patrimônio.
A ideia foi utilizar essa tecnologia atual da inteligência artificial e construirmos nossa própria solução de uma plataforma que nos ajudasse a entender, a conhecer o conteúdo dos acervos documentais digitalizados e por digitalizar, já que as ideias que existem no mercado são bastante onerosas, se a gente pensar em escalar a leitura de documentos para essa necessidade nossa, na casa de dezenas de milhões de imagens.
Desafios
A consolidação do Transcritor-IA depende do aporte de investimento para funcionar de forma plena, haja vista a dificuldade na captação de recursos para viabilizar o seu desenvolvimento com celeridade. De acordo com o professor Raimundo Valter, o projeto está há cerca de um ano na fase de captação de recursos para finalizar o Mínimo Produto Viável, que permitirá incluir um volume maior de documentos na plataforma. Além disso, há dificuldades para obtenção de bolsas destinadas a professores e estudantes, o que limita o ritmo de avanço.
Os obstáculos, no entanto, não aplacam o ânimo da equipe. “Apesar do ritmo mais lento, mantemos a convicção de que algum edital público poderá viabilizar a consolidação dessa iniciativa acadêmica como um produto economicamente sustentável”, espera ele, informando que o projeto está evoluindo com base no trabalho voluntário de docentes e dois estudos pagos com um recurso garantido através da prefeitura de Cedro.

Equipe
O projeto foi idealizado pelos professores George Ney e Raimundo Valter, com pesquisa da equipe de estudantes conduzida por Rodrigo Cruz, aluno do curso de Engenharia em Ciência da Computação, do campus de Aracati. A equipe conta também com Alysson Henrique e Alexsandro Costa, alunos do IFCE, e Eduardo Mafezoli, da UNIFOR. Os trabalhos são desenvolvidos no DragãoLab, laboratório coordenado pelo professor Valter no campus de Aracati. A iniciativa, inclusive, foi tema de artigo científico do estudante Rodrigo Cruz, único bolsista do projeto, apresentado no Seminário Integrado de Software e Hardware (SEMISH), um dos principais eventos do Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSBC), realizado em Maceió-AL, em julho de 2025.
Reportagem: Elinaldo Rodrigues (agencia@ifce.edu.br)
Fontes: professores George Ney (george.almeida@ifce.edu.br) e Raimundo Valter (valter.costa@ifce.edu.br)
- Palavras-chave:
- Agência IFCE inteligência artificial