Zona rural
IFCE investiga possível descoberta de petróleo em Tabuleiro do Norte
A descoberta ocorreu durante a tentativa de perfurar um poço de pouco mais de 40 metros em busca de água
Publicada por Andressa Sanches em 20/02/2026 ― Atualizada em 20 de Fevereiro de 2026 às 20:12

São pouco mais de 35 quilômetros que separam o Sítio Santo Estevão da sede do município de Tabuleiro do Norte, no Baixo Vale do Jaguaribe. O trajeto da cidade até a comunidade rural é colorido pelo primeiro verde que anuncia a chegada da estação chuvosa na região. Com metade do percurso feito em rodovia asfaltada e o restante em piçarra, a comunidade está localizada em uma vasta área de terra plana, adornada por carnaubeiras, e fincada bem no topo da Chapada do Apodi. É nesse torrão, tão cobiçado por grandes empresas agrícolas e, mais recentemente, por empreendimentos de geração de energia solar, que uma família testemunhou a esperança se transformar em dúvida.
Em novembro de 2024, o patriarca da família decidiu juntar algumas economias, oriundas sobretudo da aposentadoria dele e da esposa, para dar fim a um desassossego que incomodava a família há alguns anos: a falta de água. Seu Sidrônio Moreira carrega no rosto as feições do homem do campo, criado na lida rural e bom proseador. Vive com a esposa e mais dois filhos, e faz questão de dizer que o terceiro está viajando a trabalho no Piauí. O caminhar é lento, sem pressa, e a acolhida aos visitantes acontece debaixo de uma varanda, cercada pela sombra dos pés de cajarana e de seriguela. Mas essa mansidão é interrompida pela preocupação constante por água.
“Quando eu cheguei aqui, sem água, eu disse: ‘Vou furar um poço’. Chamei minha esposa, fizemos um empréstimo do nosso dinheiro, da aposentadoria, e furei esse poço. Só que não deu água, deu foi esse material”, conta, apontando para a entrada de um poço tubular. O material ao qual seu Sidrônio se refere é um líquido viscoso, preto, denso e que, pelo cheiro, lembra o odor característico de óleo automotivo. Àquela altura, para quem havia empregado os poucos recursos disponíveis em busca de água, não havia notícia mais desanimadora. “Começou a vir um óleo na haste da máquina. Eu chamei o cara da máquina, ele parou, eu passei a mão na haste, cheirei e disse: ‘Óleo?’. Os caras acharam graça: ‘É óleo isso aqui’”, relembra.

Decepcionado com o resultado, o poço foi isolado e uma nova tentativa de perfuração foi feita do outro lado do quintal, a cerca de 50 metros de distância do primeiro. A esperança renovada de encontrar água foi novamente frustrada quando seu Sidrônio percebeu que os indícios de insucesso se repetiam. “O cavador lá me ajudou, disse: ‘Não, bora furar, rapaz’. Eu disse: ‘Eu não vou mais não, não tem como’. Ele disse: ‘Eu lhe ajudo’. Aí eu fui, furei em outro lado, mas com 23 metros começou a dar o mesmo problema, jogaram umas pedras pretas. Aí eu disse: ‘Não, vamos parar com isso aí, não dá certo não’”, conta.

Sem água, os poços no quintal de casa foram fechados. A lida do campo não podia esperar. Somente tempos depois, um dos filhos de seu Sidrônio decidiu investigar o material encontrado. “Com um ano, meu menino mais velho, o Sidney, disse: ‘Pai, vamos cuidar daquele poço’. Eu disse: ‘Não, meu filho’. Ele disse: ‘Vamos mexer’. Pediu para eu comprar uma linha de náilon, fez uma caneca, meteu dentro e pelejou até que puxou esse óleo”, explica. Seu Sidrônio já tinha sua suspeita. “Água não pega fogo”, diz. Mas o material coletado do poço atiçava qualquer brasa retirada do fogão à lenha. O destino da amostra foi o campus de Tabuleiro do Norte do Instituto Federal do Ceará.
Investigando a descoberta
A história de um poço artesiano com material parecido com petróleo chegou ao conhecimento do engenheiro químico do campus Tabuleiro do Norte, Adriano Lima. A primeira reação foi de dúvida. No entanto, quando uma amostra chegou à instituição, a investigação tomou um novo rumo.
“Ano passado, a gente recebeu essa notificação por meio do proprietário da terra. Ele nos procurou, a princípio informando que tinha achado um material viscoso, escuro, e queria ajuda do IFCE por não saber o que fazer com esse achado. A priori, ele trouxe algumas fotos e a gente observou esse material. Eu achei estranho, porque o relato dele é que, num processo de escavação artesanal de um poço, por volta de 30 metros, ele já se deparou com esse achado. Eu achei realmente uma profundidade muito rasa para ter um achado dessa natureza. Pedi para ele recolher um pouco desse material e trazer para tentarmos proceder com algum tipo de análise, com base na nossa estrutura”, explica Adriano.
O enredo era singular. Afinal, Tabuleiro do Norte é conhecida nacionalmente como a Terra dos Caminhoneiros, mas nunca se teve notícia de poço de petróleo na região. Apesar disso, a poucos quilômetros dali, do outro lado da divisa, a cidade de Mossoró (RN) ganhou notoriedade pela ocorrência de poços em terra, cuja extração é conhecida como onshore. Foi para Mossoró que a amostra de seu Sidrônio foi enviada.

“Nós recorremos a um parceiro institucional, no caso o Núcleo de Pesquisa em Economia de Baixo Carbono da Universidade Federal do Semi-Árido (Ufersa), com o apoio dos professores Frederico Ribeiro e Daniel Valadão. Conseguimos fazer algumas análises físico-químicas, especialmente densidade, viscosidade, cor e o cheiro característico. De posse desses resultados, conseguimos perceber que realmente se tratava de uma mistura de hidrocarbonetos muito característica, com propriedades muito similares ao petróleo da região onshore da Bacia Potiguar”, informou Adriano.
A notícia rapidamente chegou ao Sítio Santo Estevão e, junto com ela, a preocupação em esclarecer sobre o achado. Segundo Adriano Lima, foi necessário informar à família que o material encontrado tinha características de petróleo, e que os órgãos competentes deveriam ser comunicados.
“O primeiro passo foi tentar explicar à família que aquele material encontrado, apesar de estar em uma propriedade privada, era de posse da União. Automaticamente, nós orientamos que o caminho mais natural seria provocar os órgãos oficiais, especialmente a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis)”, esclareceu.
Ainda segundo Adriano Lima, por se tratar de um material poluente, outras orientações precisaram ser repassadas à família e à vizinhança. “É importante enfatizar que o fato de terem encontrado esse material em um poço mais raso, numa região onde até então não se tinha descoberto, não deve ser encarado pela sociedade como um elemento estimulador para que as pessoas tentem achar também. Primeiro, porque a legislação não permite. Segundo, há riscos associados. Qualquer tipo de intervenção dessa natureza, sem os equipamentos e orientações adequados, pode contaminar o lençol freático ou o aquífero, prejudicando ainda mais toda a comunidade e transformando a situação em um crime ambiental”, alertou.
Adriano Lima explica ainda que, a partir dos dados cartográficos da localização do poço, foi possível constatar que a área está fora dos blocos de exploração da ANP. “Isso acaba frustrando um pouco a família, porque existe um procedimento que ainda precisa avançar. O órgão precisa se manifestar, visitar o local, realizar análises mais específicas e fazer um estudo geológico da área, justamente para saber a magnitude desse achado”, informou.

Diante de tantas reviravoltas no sonho de ter água perto de casa, o desejo de seu Sidrônio não mudou de foco. Enquanto muitos sonhariam com a prosperidade de uma mina de ouro negro, a expectativa de um autêntico sertanejo continua sendo por água. “Eu tinha vontade que eles viessem aqui ver isso aí e continuassem para frente para ver se dava alguma coisa. Qualquer coisa que desse aí servia para a gente, porque é uma calamidade muito grande de água aqui”, concluiu.
Texto e fotos: Marcelo Andrade
Infográfico: Júlio Pio
Vídeo: Ícaro Dias
Fonte: Adriano Lima (adrianoerique@ifce.edu.br)
- Palavras-chave:
- Agência IFCE Combustível Petróleo