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Tecnologia

Estudantes criam dispositivo de baixo custo para denunciar violência contra a mulher

Sistema pode ser acionado de maneira mais discreta por não exigir contato físico direto nem uso ostensivo de celular

Publicada por Andressa Sanches em 05/03/2026 Atualizada em 5 de Março de 2026 às 17:52

Em um cenário em que os casos de violência contra mulheres seguem crescendo no país, mas nem sempre são acompanhados pelo aumento nas denúncias, três estudantes do campus de Limoeiro do Norte do Instituto Federal do Ceará decidiram transformar a inquietação em pesquisa. O resultado é o desenvolvimento de um dispositivo eletrônico pensado para permitir que vítimas acionem pedidos de ajuda de forma discreta e segura. O projeto, já apresentado em eventos científicos, é assinado pelas estudantes do ensino médio integrado Kauana Chaves, Sabrina Andrade e Ingrid Sobreira, sob orientação do professor Holanda Júnior.

A ideia surgiu em 2023, quando as estudantes observaram que, apesar do aumento dos casos de violência contra mulheres, as taxas de denúncia não acompanharam esse crescimento. Para elas, havia uma lacuna: muitas vítimas enfrentam dificuldades para acessar os meios formais de denúncia ou temem represálias.

Estudantes Ingrid Sobreira, Sabrina Andrade e Kauana Chaves, com professor orientador Holanda Júnior (foto Diogenilson Aquino)
Estudantes Ingrid Sobreira, Sabrina Andrade e Kauana Chaves, com professor orientador Holanda Júnior (foto Diogenilson Aquino)

“Pensamos em todos os tipos de violência, porque nenhuma deve ser considerada menos grave”, explica Kauana. A violência psicológica, por exemplo, pode evoluir para agressões físicas. Em situações de violência doméstica, o controle exercido pelo agressor muitas vezes impede o uso livre do celular, o que pode colocar a vítima ainda mais em risco. Foi a partir dessa constatação que surgiu a proposta de um dispositivo discreto, portátil e acessível.

Como funciona a tecnologia

O projeto envolve dois segmentos: um centro de controle fixo e um equipamento externo portado pela vítima, com formato semelhante a um chaveiro. A escolha pelo uso de sinais infravermelhos foi estratégica. Como não exige contato físico direto nem uso ostensivo de celular, o sistema pode ser acionado de maneira menos perceptível.

Estudante Sabrina Andrade simula sensor de identificação de sinal (Foto Diogenilson Aquino)
Estudante Sabrina Andrade simula sensor de identificação de sinal (Foto Diogenilson Aquino)

Atualmente, o grupo já desenvolveu dois aplicativos em fase de teste. Um deles, acionado pelo celular, envia localização, áudio de dez segundos e mensagem de socorro para contatos previamente cadastrados. O outro elimina a necessidade do aparelho móvel: instalado em computador, identifica um gesto feito com a mão por meio de câmera e, ao reconhecer o sinal, envia mensagens, vídeos em time lapse e a localização da vítima.

O protótipo utiliza uma placa de baixo custo, baixo consumo de energia e conectividade integrada via Wi-Fi e Bluetooth. Segundo o orientador, essas características facilitam a comunicação rápida com sistemas de monitoramento e órgãos responsáveis.

Acessível por princípio

Um dos desafios centrais foi equilibrar eficiência tecnológica e acessibilidade financeira. Em diversos momentos do desenvolvimento, as estudantes poderiam ter optado por componentes mais caros. Decidiram não seguir por esse caminho.

Estudante Ingrid Sobreira apresenta sensor com sinal de alerta (Foto Diogenilson Aquino)
Estudante Ingrid Sobreira apresenta sensor com sinal de alerta (Foto Diogenilson Aquino)

O objetivo é que o dispositivo possa ser reproduzido em larga escala e utilizado por mulheres em situação de vulnerabilidade, independentemente de renda. “Não queríamos que fosse algo exclusivo para pessoas de classe alta. O foco sempre foi alcançar o máximo de mulheres possível”, afirma Ingrid.

O projeto prevê ainda adaptações para diferentes realidades. Em áreas urbanas, a tecnologia pode se integrar a estruturas já existentes, como câmeras e espaços públicos monitorados. Em áreas rurais, a proposta é trabalhar com soluções simples e de baixo custo, articuladas com órgãos públicos locais.

Ciência, formação e impacto social

Estudante Kauana Chaves simula botão do pânico (Foto Diogenilson Aquino)
Estudante Kauana Chaves simula botão do pânico (Foto Diogenilson Aquino)

Para o professor orientador, o projeto articula tecnologia, inovação e responsabilidade social ao aplicar conhecimentos de eletrônica e informática na busca por soluções para uma demanda urgente da sociedade.

Ele destaca também o papel da iniciação científica na formação das estudantes. “A participação em projetos como esse desenvolve pensamento crítico, científico e social, ampliando habilidades e fortalecendo a formação ética e intelectual”, avalia Holanda Junior.

Ao longo do processo, as alunas enfrentaram desafios técnicos, especialmente na escolha de componentes de baixo custo e na definição dos códigos de programação. Contaram com apoio de colegas da área de mecatrônica, professores e colaboradores internos e externos.

Próximos passos

Após a fase de protótipo apresentada nos eventos científicos, o projeto deve avançar para o uso de visão computacional, reduzindo a necessidade de hardware adicional. Também está prevista a incorporação de tecnologia que permite comunicação sem fio de longo alcance com baixo consumo energético.

Equipe desenvolvedora apresenta sensor com sinal de alerta (Foto Diogenilson Aquino)
Equipe desenvolvedora apresenta sensor com sinal de alerta (Foto Diogenilson Aquino)

Os próximos testes devem envolver a comunidade interna e externa, com diálogo junto a órgãos de segurança pública. As pesquisadoras defendem ainda que, no futuro, o dispositivo possa ser distribuído por delegacias da mulher, postos de saúde e outros equipamentos públicos, mediante parcerias institucionais e investimento governamental.

Mais do que um projeto acadêmico, a pesquisa se conecta à trajetória pessoal das estudantes. “Somos mulheres e essa causa faz parte da nossa vida. Isso nos dá ainda mais força para continuar desenvolvendo melhorias e contribuir para que outras mulheres tenham mais segurança”, afirma Sabrina.

Texto e fotos: Diogenilson Aquino (agencia@ifce.edu.br)

Fontes: Kauana Chaves (kauana.chaves10@aluno.ifce.edu.br), Sabrina Andrade (sabrina.andrade08@aluno.ifce.edu.br), Ingrid Liane (ingrid.liane08@aluno.ifce.edu.br), professor Holanda Júnior (francisco.holanda@ifce.edu.br)

Palavras-chave:
Agência IFCE Combate à violência Inovação Tecnologia

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