Inclusão
Superação e Vitória: Estudantes com necessidades específicas defendem TCC em Maracanaú
Dois estudantes com deficiência visual e uma discente com deficiência auditiva defenderam seus trabalhos de conclusão de curso
Publicada por Saulo Silva em 26/12/2025 ― Atualizada em 31 de Dezembro de 2025 às 09:08
A sensação de vitória vem acompanhada de um gosto especial de superação. Estes sentimentos são compartilhados por Vaniria de Fátima Mendes de Lima, concludente do curso de licenciatura em Química (orientada pela professora Juliana de Brito); João Paulo Calixto da Silva e Francisco Aldenor Silva Neto, ambos concludentes do curso de bacharelado em Ciência da Computação, orientados pelo professor Agebson Rocha. Cada um deles conviveu com obstáculos e os superou. João Paulo, devido a necessidade específica ligada à dificuldades na visão, precisou criar estratégias para chegar ao campus.
“Nos primeiros dias, minha tia ou um parente me acompanhavam, e eu fui mapeando o caminho sozinho. Como não consigo enxergar para fora do ônibus, eu precisei criar estratégias: contava as curvas, marcava o tempo no relógio e, quando chegava à quinta curva, eu sabia que estava próximo do ponto de descida. Em outro momento, precisei mudar de rota e essa nova rota não tinha curvas — então passei a usar as lombadas da BR como referência. Quando o ônibus dava três balançadas, eu sabia que era o momento de pedir para descer. Foi literalmente mapear o caminho “no caos”.
Francisco Aldenor, concludente do bacharelado em Ciência da Computação, voltou a estudar 17 anos após concluir o ensino médio. Devido as necessidades específicas ligadas à falta de visão, Aldenor enfrentou questões de orientação e mobilidade dentro do campus e também dificuldades com materiais que ainda não estavam adaptados para sua condição. Já Vaniria de Lima, concludente da licenciatura em Química, que convive com deficiência auditiva, superou os desafios ligados à adaptação ao ritmo acadêmico em meio a questões pessoais.
Apesar das dificuldades, os três concludentes encontraram no campus espaços de apoio, a exemplo do Núcleo de Acessibilidade às Pessoas com Necessidades Específicas (Napne). João Paulo, concludente do curso de bacharelado em Ciência da Computação, destaca a atuação do Napne na mediação com os professores e a disponibilização de pessoas para o auxiliar nas disciplinas, no caso dele a de cálculo.
Também concludente do bacharelado em Ciência da Computação, Francisco Aldenor reconhece a atuação do Napne como essencial para à mobilidade dele no campus. Vaniria, concludente da licenciatura em Química, foi bolsista voluntária do Napne.
“Como bolsista e voluntária de 2021 a 2023, vivi situações que ampliaram meu olhar sobre inclusão e ajudaram a fortalecer-me como estudante e como pessoa”, destaca a formanda.
As vivência e desafios inspiraram esses estudantes a caminhar, pesquisar e desenvolver seus trabalhos de conclusão de curso, é o que comenta a professora Juliana de Brito, orientadora do trabalho de Vaniria de Fátima Mendes de Lima.
“Cada um deles apresentou pesquisas profundamente alinhadas às suas próprias vivências, contribuindo de forma singular para o avanço do debate sobre acessibilidade e inclusão no ensino superior”.
Pesquisas e vivências
Permitir às pessoas com deficiência visual explorar gráficos de funções e formas geométricas, com a possibilidade de tocar na tela e desenhar essas projeções. Com esse desejo, João Paulo desenvolveu seu trabalho de conclusão de curso. Aprovado e pensando no futuro já trabalha na expansão para 3D, o que permitirá ao usuário inserir coordenadas no GeoGebra e também importar essas projeções para o Gráficos Táteis.

João Paulo apresentando defesa do trabalho de conclusão de curso. Imagem: arquivo pessoal
O projeto já ultrapassou as fronteiras do Ceará e já foi apresentado no segundo Seminário Pernambucano de Tecnologias Assistivas, realizado em Recife. “Além disso, não estou focado apenas em pessoas com deficiência visual. Também estou desenvolvendo o Tec-Educa, um aplicativo voltado para pessoas surdas e deficientes visuais. No Tec-Educa, ao tocar em um conteúdo, um avatar em Libras aparece para descrever o material, e o deficiente visual pode ouvir o conteúdo em áudio, pausar e continuar a leitura conforme necessário”, completa João Paulo.
Francisco Aldenor Silva Neto, concludente do curso de Bacharelado em Ciência da Computação, trabalhou as perspectivas de Inovação e Inclusão Digital por meio do desenvolvimento de Recursos Acessíveis para Pessoas com Deficiência Visual no Contexto de Educação e Entretenimento.

Aldenor Neto durante a apresentação de defesa do TCC. Imagem: arquivo pessoal
O desafio de construir caminhos inclusivos também está presente no trabalho de Vaniria de Lima, concludente da licenciatura em Química. O estudo dela, ao analisar uma década de publicações sobre ensino de química para estudantes surdos, aponta para necessidade urgente de materiais didáticos acessíveis, terminologias adequadas e práticas docentes que respeitem à visualidade da linguagem de Libras.

Vaniria defendendo trabalho de conclusão de curso. Imagem: arquivo pessoal.
Persistência e comunicação
Manter a persistência e não desanimar é o primeiro passo. Para Vaniria, cada conquista tem seu valor independente do tempo “Caminhe no seu tempo e reconheça sua coragem em estar ali, construindo seu futuro”, reflete a concludente. Mais um elemento fundamental para o sucesso é uma boa comunicação, prova disso se reflete na trajetória de Francisco Aldenor Silva Neto.
“Mantive uma postura comunicativa e estabeleci um diálogo aberto com os professores, o que permitiu que cerca de 90% deles adaptassem os materiais ou detalhassem verbalmente conteúdos apresentados em slides ou no quadro. Também contei com o apoio constante dos colegas de turma, que me ajudavam quando surgiam barreiras de compreensão em sala. Esses fatores foram fundamentais para que eu conseguisse avançar e concluir o curso”.
Uma boa comunicação também foi instrumento decisivo para João Paulo Calixto da Silva que traz uma dica para quem está entrando e possui necessidades específicas.
Logo no começo do semestre procure o Napne e converse com os professores. Se apresentar, explicar sua condição e falar das suas necessidades faz toda a diferença. Quando o professor entende desde o primeiro dia quais adaptações você precisa — seja material ampliado, acessibilidade digital, apoio extra ou outra forma de suporte — o processo de aprendizagem fica muito mais leve e produtivo
Vaníria lembra que no começo tudo pode parecer difícil, mas, isso não deve refletir na percepção de capacidade.
“A universidade é sua também. Você merece estar nesse espaço, merece aprender e merece se orgulhar do que vai construir ao longo dessa jornada”.
Saulo Rêgo - Jornalista IFCE Maracanaú
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